Na manhã desta quinta-feira, às 9h, a Escola do Legislativo de Rondônia recebeu um importante encontro organizado pela Procuradoria Especial da Mulher, com o propósito de fortalecer o debate sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mundo do trabalho. A iniciativa destacou a necessidade de pautar temas como violência, desigualdade, autonomia, capacitação e saúde mental, promovendo a conscientização da sociedade e incentivando a construção de ambientes mais justos e seguros para todas.

O evento reforçou ainda a importância da participação dos homens nesses diálogos, reconhecendo que a igualdade de gênero é uma responsabilidade coletiva e que o apoio masculino é fundamental para transformar estruturas e comportamentos. Ao mesmo tempo, ressaltou-se o valor da união entre mulheres, que ao se apoiarem mutuamente fortalecem redes de proteção, liderança e resistência.

A programação contou com a presença da deputada estadual Ieda Chaves, do secretário municipal de Meio Ambiente Vinicius Miguel, da advogada Denise Torcato e da psicóloga Cibelle Amaral, que contribuíram com reflexões técnicas e experiências profissionais para ampliar a compreensão sobre os temas discutidos.

 

O Trabalho das Mulheres e os Desafios Estruturais: Vozes Ribeirinhas em Foco

O ambiente de trabalho, seja urbano, rural ou ribeirinho, revela realidades distintas vividas pelas mulheres no Brasil. Para muitas delas, especialmente as que vivem em áreas isoladas, o trabalho é ao mesmo tempo ferramenta de sobrevivência e espaço de resistência. No entanto, ainda encontram barreiras históricas que afetam sua autonomia, sua saúde, seu desenvolvimento profissional e sua segurança. Falar sobre isso é reconhecer desigualdades, mas também iluminar caminhos de transformação.

Violências no Trabalho e nas Redes

As violências que as mulheres enfrentam no ambiente de trabalho assumem muitas formas: assédio moral, assédio sexual, humilhações, constrangimentos e até ameaças públicas nas redes sociais. Para as mulheres ribeirinhas, esse cenário é agravado pela distância institucional, pela falta de canais acessíveis de denúncia e pela invisibilidade territorial.
A violência online também cresce, expondo mulheres a ataques enquanto tentam empreender digitalmente ou participar de discussões públicas. Garantir proteção e informação é essencial para que possam trabalhar sem medo — seja presencialmente, seja através da internet.

Divisão Sexual do Trabalho

A divisão sexual do trabalho ainda determina quais funções são “aceitas” ou “esperadas” para as mulheres. Enquanto elas são direcionadas historicamente ao cuidado, ao serviço e às atividades domésticas, os homens são associados à liderança e aos cargos de autoridade.
Nas comunidades ribeirinhas, essa divisão ganha contornos ainda mais fortes: muitas mulheres acumulam o trabalho na casa, o cuidado com filhos e idosos, atividades de pesca, agricultura de subsistência e pequenos empreendimentos — quase sempre sem reconhecimento formal.
Romper essa lógica é reconhecer que toda mulher pode ocupar qualquer espaço, desde a gestão comunitária até grandes posições de liderança.

Adoecimento Mental Ligado ao Trabalho

As pressões do ambiente profissional, a sobrecarga de tarefas e a falta de apoio emocional contribuem para altos índices de ansiedade, depressão e esgotamento entre mulheres.
As mulheres ribeirinhas, em especial, lidam não apenas com a sobrecarga doméstica e comunitária, mas também com a instabilidade econômica, longas jornadas físicas e falta de acesso a serviços de saúde mental.
Cuidar da saúde emocional dessas mulheres é cuidar da saúde de toda uma comunidade.

Igualdade e Oportunidades

A igualdade no trabalho não significa apenas permitir que mulheres estejam presentes, mas garantir que o ambiente seja justo. Isso envolve inclusão, participação em decisões, respeito às especificidades culturais e condições reais de acesso.
Para as mulheres ribeirinhas, a igualdade depende também da chegada de políticas públicas que levem formação, tecnologia, transporte, saúde, educação e conectividade até onde elas vivem. O primeiro passo para a igualdade é garantir que todas possam começar a caminhada com as mesmas condições.

Capacitação e Formação Profissional

Capacitar mulheres é abrir portas para desenvolvimento econômico e social. Seja por meio de cursos técnicos, formações digitais, oficinas de empreendedorismo ou ensino superior, o acesso ao aprendizado transforma trajetórias.
Para mulheres ribeirinhas, programas de capacitação precisam considerar suas rotinas, deslocamentos, cultura local e condições de conectividade. A formação deve chegar a elas — não o contrário.
Quando uma mulher se capacita, ela não só cresce: ela transforma sua comunidade.

Diferença Salarial e Reconhecimento

Apesar de atuarem em diferentes setores, as mulheres ainda ganham menos do que os homens para desempenhar funções equivalentes. Essa desigualdade salarial é ainda maior para mulheres negras, indígenas e ribeirinhas, que enfrentam múltiplas camadas de invisibilidade.
Valorizar o trabalho feminino significa pagar de forma justa, reconhecer competências e romper com estereótipos que mantêm mulheres em posições sub-remuneradas.

Acesso a Cargos de Liderança

As mulheres continuam sub-representadas em cargos de direção, coordenação e gestão — tanto em ambientes urbanos quanto em organizações comunitárias. Muitas vezes, elas são vistas como apoio, mas não como liderança.
Para as mulheres ribeirinhas, chegar a cargos de importância é um ato de resistência. É ocupar um espaço historicamente negado e inspirar novas gerações a acreditarem em seu potencial.

Acesso a Ambientes de Trabalho e Autonomia

Ter acesso ao ambiente de trabalho significa muito mais do que estar fisicamente presente. Envolve mobilidade, recursos, digitalização, informação, apoio comunitário e direito de escolha.
Nas áreas ribeirinhas, a autonomia feminina é frequentemente limitada por dificuldades de deslocamento, falta de internet, ausência de postos de trabalho formais e barreiras culturais.
Garantir autonomia é oferecer ferramentas para que a mulher decida seu próprio caminho — seja empreendendo, estudando, liderando ou trabalhando dentro ou fora de sua comunidade.

Dar Voz às Mulheres Ribeirinhas

As mulheres ribeirinhas carregam histórias, saberes, força e uma profunda ligação com seus territórios. Mas para que essas vozes sejam ouvidas, é preciso abrir caminhos reais para sua participação no mundo do trabalho: com segurança, igualdade, capacitação e autonomia.
Quando uma mulher ribeirinha fala, ela não fala só por si — ela fala por toda uma linha de ancestralidade e por uma Amazônia que pulsa vida e resistência.

O encontro realizado na Escola do Legislativo reforçou que discutir o trabalho das mulheres — e todas as desigualdades que o atravessam — é um passo essencial para a construção de uma sociedade mais justa, humana e igualitária. Ao colocar em evidência temas como violência, divisão sexual do trabalho, adoecimento mental, capacitação, acesso a cargos de liderança, autonomia e condições dignas de trabalho, o evento reafirmou o compromisso de dar voz às mulheres de todas as realidades, incluindo aquelas que vivem em comunidades ribeirinhas e que tantas vezes permanecem invisíveis.

A participação de autoridades, especialistas e da comunidade demonstra que a transformação só é possível quando diferentes setores se unem. E, sobretudo, quando homens e mulheres caminham lado a lado, reconhecendo que a igualdade de gênero é uma responsabilidade compartilhada.

Que este encontro seja apenas o início de novos espaços de diálogo, formação e mobilização. Que mais mulheres se sintam fortalecidas para ocupar seus lugares, e que mais instituições assumam o compromisso de garantir direitos, proteção e oportunidades.
A mudança já começou — e ela depende de todos nós.